Médicos de Uganda recebem capacitação sobre o tratamento da cardiopatia reumática

Referência no tratamento de cardiopatia reumática uma equipe de médicos do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) foi convidada para capacitar médicos de Uganda, na África, um dos locais com maior incidência da doença no mundo. O convite veio da Children’s National Health System, localizado em Washignton (D. C.), nos Estados Unidos.

A capacitação ocorreu em Campala, capital da República de Uganda, país africano com baixos índices de desenvolvimento humano. Os médicos cardiologistas Professora Dra. Maria do Carmo Pereira Nunes e o Dr. Lucas Lodi Junqueira (hemodinamicista) voltaram da cidade no dia 24 de março, após dez dias de troca de conhecimento.

Segundo explica a Professora Dra. Maria do Carmo, a equipe do HC-UFMG deu todo o suporte para que os médicos locais aprendessem a realizar tratamento da doença valvar mitral utilizando a valvoplastia mitral percutânea por cateter-balão e pudessem, a partir de então, aplicar em outros pacientes. “Fizemos um esforço em equipe. Foram duas semanas de atendimento gratuito e treinamento intensivo. A maioria dos pacientes tinha um estado de saúde muito grave”, revelou. Isso porque não existe saúde pública em Uganda. A população – 30% das pessoas vivem em estado de extrema pobreza - precisa pagar por atendimento e tratamento médico. Sem condições financeiras para isso, as pessoas acabam deixando as doenças evoluírem para um estágio avançado.

Em outubro do ano passado, a equipe de Uganda já havia se capacitado com os mesmos profissionais brasileiros, durante estadia no HC-UFMG. “O objetivo é disseminar essa técnica avançada, na qual preservamos a válvula do paciente, adiando a cirurgia, melhorando os sintomas e aumentando a sobrevida dos indivíduos acometidos por essa enfermidade”, afirmou a Prof. Maria do Carmo.

Cardiopatia reumática

A cardiopatia reumática é uma das possíveis consequências da febre reumática, doença auto-imune causada pela bactéria estreptococos, responsável por infecções na garganta. Normalmente, o organismo combate a infecção produzindo células de defesa, os anticorpos. Em pessoas predispostas à febre reumática, no entanto, eles acabam atacando e lesionando outras partes do corpo, como as articulações, a pele e o coração.

Alguns desses pacientes evoluem com um comprometimento do coração, conhecido como cardiopatia reumática. A estenose mitral, um dos tipos mais frequentes da doença, ocorre quando a válvula mitral do coração diminui o seu orifício efetivo, não permitindo a passagem de quantidade adequada de sangue. Algumas das conseqüências são falta de ar, cansaço e tosse.

O tratamento pode ser o acompanhamento clínico, nos casos mais iniciais, cirúrgico, com a troca da válvula por uma prótese, ou percutâneo, através de um procedimento menos invasivo, com um balão utilizado para dilatar a válvula, permitindo a desobstrução do fluxo sanguíneo. O HC-UFMG tem sido a referência do Sistema Único de Saúde (SUS) para este tipo de procedimento com uma equipe treinada para garantir resultados satisfatórios.

Procedimentos

Em dez anos, o Hospital das Clínicas da UFMG já ultrapassou a marca de 300 procedimentos. “Temos habilidade técnica de um país desenvolvido. E essa troca de conhecimento é muito positiva para nós. O hospital ganha tanto quanto eles (africanos), pois temos a chance de tratar pacientes em estado gravíssimo em um contexto adverso, o que gera um aprimoramento da técnica, além de ter acesso a um número grande de novos casos, gerando novas pesquisas clínicas, contribuindo para um melhor entendimento da doença e consequentemente com a evolução do tratamento”, garante o hemodinamicista Dr. Lucas Lodi.

Segundo ele, por causa dessa parceria, o HC-UFMG aumentou o número de publicações científicas sobre o tema. “Elas estão sendo feitas em conjunto entre Brasil, Estados Unidos e África. Isso, além de estreitar o relacionamento entre esses três países, traz um grande estímulo para pesquisas sobre estenose mitral reumática”, revela.

Para ter acesso à valvoplastia mitral percutânea por cateter-balão, o paciente precisa ser encaminhado ao Hospital as Clínicas da UFMG pelos centros de saúde, que fazem o agendamento pela Central de Marcação. O procedimento é todo realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).